Estrela (Brasil)

A Manufatura de Brinquedos Estrela era uma licenciada preferencial da Hasbro no Brasil. A empresa americana teve até um escritório de representação dentro das dependências da brasileira. Muitos brinquedos que ficaram na memória das crianças por aqui foram fruto dessa parceria, como Banco Imobiliário, Genius, Transformers, e, claro, G.I. Joe.

A história da Estrela com G.I. Joe começou nos anos 70, quando ela lançou o Comandos em Ação Falcon por aqui e foi muito bem sucedida. Em 1984, eles passaram a lançar a linha de A Real American Hero com o nome de Comandos em Ação.

Adaptada para o nosso mercado, algumas liberdades foram tomadas em relação aos originais. As fichas eram inteiramente reescritas. Inicialmente, o inimigo dos comandos era um Snake-Eyes rebatizado de O Invasor, e o Cobra só desembarcou em solo nacional na segunda série. Além disso, muitos bonecos foram repintados e remontados e veículos chegaram a ser inteiramente de fora da linha, fazendo com que muitos itens tenham sido vendidos com exclusividade por aqui.

Comercial do Comandos em Ação, de 1988

A marca foi muito bem-sucedida no mercado brasileiro, e liderou as vendas de brinquedos voltados para meninos por muitos anos. Segundo a reportagem abaixo, do jornal O Globo, em apenas três anos, a Estrela vendeu 8 milhões de bonecos, o que rendeu aos seus cofres o equivalente a aproximadamente R$ 470 milhões (valores de março de 2021, corrigido pelo IPCA). Isso sem contar os veículos.

Matéria do Globo, de 22 de setembro de 1987.

Mais adiante, em artigo do Caderno Negócios da Folha de S. Paulo de 20 de julho de 1989, a Estrela declarou que esperava vender três milhões de unidades entre veículos e bonecos naquele ano. Segundo artigo do caderno de Economia do Jornal do Brasil de 4 de maio de 1990, Comandos em Ação faturou US$ 32 milhões apenas naquele ano, em que o país passava pela ressaca do Plano Collor, o que representava 10% de todo o faturamento da empresa. Nada mau.

A longevidade da marca também ajuda a colocar em perspectiva sua popularidade por aqui. Comandos em Ação durou 12 séries no Brasil entre 1984 e 1995, sendo sinônimo de bonecos de ação para várias gerações de garotos. Nenhuma licenciada internacional de G.I. Joe nem tampouco a concorrência (action figures com apoio em outras mídias como Transformers ou Thundercats) chegaram nem à metade desse tempo.

De fato, pode-se observar nas matérias mencionadas acima que o hoje cultuado He-Man foi, na época, considerado uma moda passageira, enquanto os Comandos, que foram muito mais estáveis, atualmente estão quase esquecidos.

Essa afirmação não é uma crítica à qualidade da concorrência ou algo do tipo. O mercado, na época, não era pra brincadeira, por assim dizer, e muitos desses brinquedos eram considerados caros. Os Comandos em Ação venceram a batalha contra uma eterna crise, passando por sete planos econômicos e uma inflação total de 775 bilhões por cento (IPCA pela calculadora do Bacen).

Uma das possíveis explicações para essa popularidade é que a qualidade do brinquedo aqui não deixava a desejar em relação ao original, tanto em termos de material quanto detalhes de pintura e etc. Segundo matéria do Caderno de Economia do Jornal do Brasil de 10 de outubro de 1989, aproveitando de sua boa qualidade e baixo custo em relação a outros países, a Estrela faturava US$ 20 milhões exportando G.I. Joes, Barbies e outras marcas para mercados estrangeiros, incluindo suas matrizes nos EUA. De fato, é possível encontrar o “Made in Brazil” em vários itens americanos, como a versão vendida por correio do Vamp mk. 2.

Matéria do Jornal do Brasil sobre as exportações da Estrela.

Por aqui, o desenho também foi um grande sucesso na Rede Globo, mas as HQs nunca caíram no gosto dos brasileiros. A Estrela não teve envolvimento com nenhum lançamento dessas mídias, a não ser para ceder o nome.

A história da Estrela com o G.I. Joe – A Real American Hero terminou já quando a empresa estava se adaptando a um mercado mais aberto inundado de brinquedos chineses. Mas isso não foi o fim dos Comandos em Ação. Eles chegaram a lançar uma linha que não tinha nada a ver com a da Hasbro nos anos 2000 usando o nome de Novos Comandos em Ação. Os bonecos, no entanto, não tinham as mesmas qualidade e articulações e a linha não foi para frente.

Comercial dos Novos Comandos em Ação.

A Estrela também relançou o Comandos em Ação Falcon em 2017. Em uma estratégia de mercado voltada para colecionadores e saudosistas, a marca conseguiu encontrar seu espaço.

De acordo com matéria da Folha, desde 2007, a Hasbro reicindiu unilateralmente o contrato de parceria com a Estrela alegando falta de pagamento dos royalties (o que a fábrica brasileira nega) e atua sem intermediários no mercado brasileiro, vendendo seus produtos importados.

Depois que isso aconteceu, a Estrela mudou a identidade visual dos produtos da antiga parceria e passou a lançá-los com os nomes nacionais que tinham dado a eles. Dessa maneira, foi possível encontrar na mesma loja o Clue e o Detetive, o Banco Imobiliário e o Monopoly, e assim por diante.

O Falcon foi relançado nesse contexto. Segundo pessoas dentro da Estrela, contribuiu que, na primeira vez em que o action figure foi fabricado no Brasil, os moldes foram comprados, mas com Comandos é diferente, porque os moldes teriam sido cedidos na época em regime de comodato, ou seja, não seriam de propriedade da empresa brasileira.

De qualquer forma, a Hasbro não gostou nada da manobra dos brasileiros e entrou na justiça para reaver os registros de patentes das marcas em disputa. Em em decisão do TJ-SP de 08 de fevereiro de 2022, a Estrela foi condenada a pagar R$ 50 milhões em royalties, e a destrruir seus estoques da Super Massa, além de perder essa e outras 16 marcas para a agora concorrente.

Apesar disso, a justiça entendeu que a Estrela poderia manter as marcas do Banco Imobiliário, Senhora Cabeça de Batata e Comandos em Ação. O litígio, no entanto, seguirá adiante, uma vez que ambas as empresas anunciaram que recorrerão da decisão.

Dessa maneira, os novos lançamentos de brinquedos, desenhos e filmes não usam mais o nome Comandos em Ação no Brasil e estão sob responsabilidade da Hasbro.

Só nos resta torcer para que um dia essas dificuldades legais possam ser contornadas para podermos ter com o Comandos algo parecido com o que foi feito com o Falcon.

Veja abaixo as séries da Estrela ano a ano e clique para saber mais:

Em nossas vitrines, os itens da Estrela ocupam lugar de destaque.